BAND – PROGRAMA CANAL LIVRE

Quem não viu o programa CANAL LIVRE, da Band, no domingo à noite, perdeu as três coisas mais heterogêneas no mundo da segurança que possamos imaginar: o engraçado, o trágico e o estranho estavam juntos. Foi impressionante e interessante ao mesmo tempo. Tudo no mesmo balaio. Mas de primeira qualidade.

Programa Canal Livre

Programa Canal Livre

De engraçado tínhamos os nomes, que mais parecia uma babel moderna (que poderia ser tudo, menos brasileira): Boechat, Storani, Balestreri, Beting e Mitre. É isso mesmo. Esses são os nomes, mas todos são brasileiros.

O trágico ficou por conta da notícia: obviamente o estado em que se encontra o Rio de Janeiro no que tange a segurança daquele ponto do país.

E o estranho foi ver três grupos antagônicos tão afinados em seu discurso. Quem há duas décadas nada mais era que um paisano folgado que levara “cascudos” da polícia (agora Secretário Nacional de Segurança Pública) se miscuía confortavelmente com um grupo de jornalistas de primeiro time e, pasmem de novo, compondo a távola estava um Mestre (MSc) “caveira”.

A conversa só não pegou fogo por conta do excesso de fidalguia do grupo, mas teve todos os ingredientes para isso. As perguntas eram pontuais e bem estruturadas, onde se observava com transparência a rapidez e clareza nas perguntas

de Beting, as afiadas questões colocadas por Boechat e as indagações abertas e generalistas de Mitre. As respostas do

charge

Segurança?

Secretário Balestreri vinham sempre carregadas, apesar da claras, de profundo caráter sociológico e acadêmico; enquanto isso, o “professor capitão caveira” Storani casava operacionalidade, experiência e estudos específicos para cada uma de suas colocações, sempre bem fundamentadas.

Pontos fortes? Vejamos:

  • Histórico do cenário de violência do Rio de Janeiro
  • Polícia unificada ou muitas polícias: o que é melhor?
  • Repensar a forma de criminalização da maconha. Ou não.
  • Conceito de bom policial: o do fuzil ou os “outros”?
  • Treinamento policial
  • Capitão Nascimento
  • Investimento do Brasil em segurança pública
  • O caso do Capitão e do Cabo que supostamente negaram socorro ao componente do Afroreaggae
  • Políticas e Gestão de segurança pública

Quem não viu, PERDEU! E PERDEU FEIO!

A conversa me lembrou Thomas Malory, propositalmente o autor que escreveu Os Cavaleiros da Távola Redonda. Segundo ele o lema dos cavaleiros era:

1 – Buscar a perfeição humana

2 – Retidão nas ações

3 – Respeito aos semelhantes

4 – Amor pelos familiares

Távola

Távola

5 – Piedade com os enfermos

6 – Doçura com as crianças e mulheres

7 – Ser justo e valente na guerra e leal na paz

O livro e o lema são de 1469. Será que caberiam pra hoje?

Pensemos nisso.

Sobrevivam.

Policiais mortos em helicóptero no Rio de Janeiro – a culpa deve ser da Stephanie

Olhem a notícia do R7, novo portal da Rede Record, e depois vejam quanto custa uma roupa de Nomex das “normais”. Abaixo da foto esclareço mais alguns pontos interessantes e digo para vocês quem é a Stephanie.

Secretaria da Segurança comprou macacões que foram reprovados em testes porque o tecido e a espessura são inadequados

Os policiais militares do GAM (Grupamento Aéreo Marítimo) que morreram no helicóptero derrubado por tiros de traficantes no último sábado (17) na zona norte do Rio de Janeiro não usavam roupas antichamas. Somente piloto e co-piloto usavam macacões contra o fogo e tiveram queimaduras leves.

A Secretaria da Segurança Pública do Rio comprou macacões antichamas, mas as roupas estão guardadas há mais de um mês porque foram reprovados por uma universidade federal em São Paulo. A espessura e a composição do tecido estão fora das especificações do edital da secretaria. O capitão Cristiano Milão diz que, enquanto os macacões estão nas caixas, os policiais continuam voando sem proteção:

– Um uniforme sem especificação certamente não vai proporcionar a proteção devida contra as chamas.

Os policiais militares do grupamento também reclamam da falta de armamento – como fuzis -, capacetes, coletes e óculos balísticos. Outra reclamação dos policiais é relativa aos salários baixos. Hoje, um soldado do GAM recebe de R$ 900 a R$ 1.200 para reagir a ataques típicos de guerra, como tiros vindos de traficantes em morros. Já um oficial do grupamento recebe gratificações que vão de R$ 2.500 a R$ 7.500, o que não acontece com os soldados.

Nesta quarta-feira o comandante-geral da PM no Rio, coronel Mário Sérgio Duarte visitou a sede do grupamento, em Niterói, na região metropolitana, e disse que a diferença salarial deverá ser corrigida.

– O risco [de enfrentamento com criminosos] é exatamente o mesmo. Não há diferença de oficial e praça [soldado]. Estamos buscando chegar a um ponto em que todos estejam nas mesmas condições [salariais].

A reportagem tentou falar sobre o problema dos macacões com a assessoria de imprensa da PM na noite desta quarta, mas ninguém atendeu aos telefonemas. “

Não vou entrar no mérito da discussão salarial porque acabei de falar sobre isso no comentário abaixo.

Também não vou fazer qualquer comentário institucional, que além de não ser pertinente também necessita de um conjunto de informações que não possuo.

Mas vou me permitir inserir algumas fotos sobre roupas anti-chamas e, mais uma vez, mencionar como a burocracia MATA PESSOAS em nosso país. E olhem o preço.

Macacões Nomex

Macacões Nomex

Existe um padrão munidalmente respeitado para a utilização das roupas de Nomex. Esse nome na verdade passou a ter uma conotação genérica pois é utilizado por quase todos os pilotos ou profissionais da aviação militar ou policial em seus uniformes. Deve haver certo cuidado na checagem, sim, porque existem fibras sintéticas semelhantes.

Esse tecido é um composto de fibra de aramida que, como algumas das propriedades determinantes, tem:

  • Baixa flamabilidade,
  • Resistência a abrasão,
  • Resistência a solventes orgânicos,
  • Não conduz energia e
  • Possui boa manutenção da integridade do tecido quando exposto a altas temperaturas.

É uma cadeia sintética de poliamida diferenciada. Ou seja, pegou fogo, arrastou ou foi submetido a alguns produtos soventes, o tecido aguenta. Acrescentando, é o mesmo material que faz os coletes balísticos.

Vamos agora falar da Stephanie, a culpada por tudo isso. Stephanie Kwolek foi a cientista que inventou o o Kevlar (uma das origens do Nomex), em

A velhinha do mal

A velhinha do mal

1961, quando trabalhava para uma empresa chamada DuPont (segunda maior empresa química do mundo, perdendo só para a BASF).

Mas, independente disso, acho que a culpa é da velhinha americana, que teve a infeliz idéia de inventar esse material utilizado para tanta coisa.

A “gestão” da segurança pública deve ser responsabilizada. Alguém tem noção do que é ter mais de 90% do corpo queimado?

Provavelmente não.

Pensemos nisso.

Sobrevivam.

0,6% de investimento em segurança e R$ 900,00 de salário: tudo isso?

Fiquei com medo do que coloquei no blog essa semana, no post com o título “E VOCÊ?” (já deu uma olhadinha?). TÔ PARECENDO MÃE DINAH!!! Ali eu mencionei o seguinte:

“2. Mesmo que governantes e políticos ( às vezes pouco interessados na real solução do problema) saibam dos graves

É de comer?

É de comer?

circunstâncias relacionadas ao crime organizado, instituições de segurança levam algo em torno de dois anos para conseguir comprar equipamentos que desejam para proteger um cidadão, qualquer que seja ele ou ela;”

Acho que eu estava certo.

Sobre isso, olhem esse trecho publicado na página do Jornal Nacional:

“(…)

Secretário de Segurança do RJ cobra ajuda federal

O ministro da Justiça disse que o Governo Federal tem ajudado o Rio de Janeiro no combate à violência. Mas o secretário de segurança do estado se queixou da falta de apoio.

O secretário de Segurança Pública do Rio se queixou da falta de ação do Governo Federal no combate ao narcotráfico. Na segunda-feira, em um evento fechado, José Mariano Beltrame disse que a polícia do estado acaba fazendo o trabalho da Polícia Federal. E afirmou que o episódio do fim de semana deveria ser visto como “nosso 11 de setembro”, em referência aos atentados terroristas nos Estados Unidos em 2001.

Beltrame também reclamou da burocracia do Exército para autorizar a compra de armas pesadas para a polícia. (…)”

Junto com isso, reclama  comentarista de ecomonia (economia?) Mirian Leitão:

“(…)

O governo federal sempre se apresenta como auxiliar, solidário nesses momentos, oferece ajuda. Primeiro: investe muito pouco em segurança, apenas 0,6%. Além disso, é obrigação do governo federal combater tráfico de drogas e de armas.

As polícias civil e militar têm funções de investigação, policiamento, prevenção. Têm trabalhado nessa área. Mas também têm que combater tráfico, que não é de sua função. É um problema.

A polícia do Rio de Janeiro já conseguiu capturar, de 2007 para cá, 35 metralhadoras antiaéreas. É uma guerra.

(…)”

Pelo menos tem alguém falando. E em rede nacional.

Enquanto isso, continuamos sem investimentos e sem treinamento.

Quer ver o vídeo? Tá aí em baixo com o link.

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1144538-7823-MIRIAM+LEITAO+FALA+DA+LUTA+CONTRA+A+CRIMINALIDADE,00.html

O verdadeiro consultor

Hoje fiquei extremamente satisfeito quando vi o Bom Dia Brasil, na TV Globo.

Todo mundo sabe que o nosso maior problema é a figura caricata criada pela imprensa brasileira chamada CONSULTOR DE SEGURANÇA. Tudo bem que aspectos sociológicos são importantes, mas não são os únicos presentes em uma análise referente aos eventos criminosos.

Minha maior felicidade foi ver naquele programa de abrangência nacional um VERDADEIRO CONSULTOR. Conheci o

Paulo Storani

Paulo Storani

entrevistado, PAULO STORANI, no segundo semestre de 2007, quando era Subcomandnate do BOPE e coordenei a criação do I SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE OPERAÇÕES ESPECIAIS, no Clube do Exército de Brasília. Ele foi policial militar da PMERJ, formado pela Escola de Formação de Oficiais e especialista em Educação Física, Gestão de Recursos Humanos e Administração Pública.

Obviamente não foi por isso que ele esteve no Simpósio. Ele foi o preparador de elenco do filme TROPA DE ELITE, por ter sido membro do BOPE do Rio de Janeiro por vários anos e ter realizado trabalhos operacionais e acadêmicos no próprio BOPE, alem de guardas municipais, Faculdades como Cândido Mendes e a Academia de Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Bom, academicamente ninguém melhor que um especialista em explosivos, táticas policiais especiais, proteção de autoridades (Israel) e gestão se sistemas de segurança (também em Israel) para falar sobre o que fazer em uma crise como a que os colegas do Rio estão enfrentando. Ah, detalhe: ele, adicionalmente, é Mestre em Antropologia Social. Um pequeno detalhe…

Passem adiante a notícia. Um verdadeiro consultor e falando sobre segurança com propriedade. Deus está olhando para as PMs de novo.

Veja o vídeo. E sobreviva.

Leonardo Sant’Anna

Meu filho foi abordado pela Polícia Militar do Distrito Federal

Meu filho foi abordado pela Polícia Militar do Distrito Federal ontem à tarde.

Eu estava em sala de aula, na Academia de Polícia Militar de Brasília, assistindo a uma palestra do Curso de Altos Estudos da PMDF (equivale ao CSP em outros estados).

Vantagem: Eu sou o Estado!

Vantagem: Eu sou o Estado!

Meu filho não mora comigo. Mora com a mãe (que também é Oficial da PMDF) e com os avós. Pelo fato da mãe dele não ter conseguido me contatar, só tomei conhecimento por volta das 18:40 horas. Liguei para ele e, depois de iniciar uma breve conversa, de imediato perguntei como fora a abordagem, pois percebi o quão constrangido e nervoso ele estava.

Ele me disse que os policiais, descendo com “arma em punho”, solicitaram que ele fosse ao chão. Depois disso, que levantasse suas roupas e tirasse o boné. Ele tentou, como qualquer um tentaria, explicar o que ocorreu, mas recebeu a determinação de ficar calado.

Simultaneamente e possivelmente após pedirem que ele saísse da posição em que estava, perguntaram de onde ele vinha e para onde ele ia. Ele disse estar indo à casa de um amigo (que mora na quadra 715 Sul – área relativamente nobre da Capital Federal) fazer um trabalho de informática; e complementou que vinha da casa de sua mãe (na 713 Sul). A partir deste instante os policiais relataram um roubo a uma senhora, feito por 04 agressores, de quem levaram uma bolsa. Determinaram em seguida que ele fosse correndo para a casa do amigo, pois os bandidos poderiam estar nas imediações.

Meu filho obedeceu.

Meu filho correu como pôde e o quanto pôde.

Meu filho ainda está assustado.

Meu filho. Mas podia ter sido o seu!

É bom que lembremos o que há pouco eu discutia e debatia em um grupo acadêmico, sob a ótica da Criminologia e da Sociologia Criminal, o “labeling” ou etiquetamento. Rasamente, seria como rotular uma pessoa como sendo alguém que tenha um comportamento previamente determinado socialmente.

Me pareceu que meu filho estava, segundo pesquisas sociológicas, no perfil de possíveis abordados. No grupo dos que possuiriam uma “identidade desviante”. E o pior: essa possível rotulação não é algo previamente acertado por policiais. Para nossa infelicidade estamos falando de um conceito social. Como eu, meu filho é “negão”. Apesar dos 11 anos, é mais alto do que eu imaginaria que pudesse ficar (1,67 m). Tem tamanho de garoto de 14. Só tamanho. Mas é “negão”. Naquele momento não era o FILHO DO MAJOR SANT’ANNA. Era um brasileiro. No lugar errado e na hora errada, suponho eu. É uma conjectura. Só uma conjectura.

Irônico senhores. No mínimo irônico. Vejam só: ontem eu postei novo artigo no blog com título “E VOCÊ?”. Parecia que eu estava adivinhando. Dêem uma lida:

“Tem muita gente sendo injusta e violentamente vitimada. Tudo pelo fato de alguns doutos entenderem que mais tempo nas ruas e menos treinamento resolvem o problema de segurança da população. Será esse o caminho? Duvido.”

Mais irônico ainda é o fato de uma de minhas monografias (2004) ter o título “ABORDAGEM POLICIAL, À LUZ DOS DIREITOS HUMANOS, COM USO DE ARMA DE FOGO”. Tenho que dar um jeito de socializá-la. Por minha conta.

Um dos parágrafos escritos no estudo de 2004:

“A falta ou a não observação de normatização das técnicas e táticas de abordagem policial  dificulta a análise destas segundo os critérios dos direitos humanos, da legislação nacional e dos meios empregados. Isto possibilita o uso de

Libertas

Libertas

técnicas inadequadas, que quase sempre resultam em arbitrariedade, ilegalidade e violência. Sem uma supervisão e orientação única a respeito dessas técnicas, ao longo do tempo, causam uma deformação e desatualização destas. Precisa-se, portanto, um constante aprimoramento, através da busca de novas técnicas e do constante treinamento.”

Quer mais ironia? Desde 1995 ou dou aulas dentro da PMDF. Desde 1998 eu colaboro fora da PMDF com treinamento policial. Em 2005 e 2006 foi contratado pela ONU como consultor de treinamento. Em 2008 fui instrutor junto com a SWAT. Hoje tenho, apenas fora da PMDF, mais de 5.500 profissionais de segurança, dentro e fora do Brasil. Eu posso dizer de cadeira: nós treinamos pouco. Muito pouco.

Hoje o resultado foi comigo. E no final foi “bom”. Era o meu filho. Era a Polícia Militar do Distrito Federal. Mas profissionais normalmente reproduzem o que são capacitados a fazer. As competências e habilidades neles incutidas foram formatadas por nós. Quem é mais antigo os capacitou. Talvez eu os tenha capacitado. Ou você.

Esta é a minha Polícia. Esta é a sua Polícia.

Estou no caminho certo.

Aos que me conhecem, vai o recado: E vou continuar treinando profissionais de segurança. Quantos e enquanto eu puder. Serve para quem não me conhece também.

E você? E os seus filhos? Como estão?

Para ajudar:

http://www.investidura.com.br/sobre-investidura/3368.html?joscclean=1&comment_id=134

http://www.oquintopoder.com.br/protecaoeseg/index4.php

http://blog.cevipol.com.br/2009/08/04/prisao-preventiva-vitimizacao-policial-e-etiquetamento/

E VOCÊ?

Alguém já pensou o quão complicado é lidar com a morte do jeito que nós lidamos? E com a violência? Com a família, talvez?

É algo que infeliz e normalmente não pensamos.

Enquanto a sociedade nos trata como portadores de alguma sociopatia, os

Qual o seu caminho?

Qual o seu caminho?

familiares vêm um herói a cada vez que saímos ou entramos em casa. Às vez é interessante como somos obrigados a conviver com esse paradoxo. É a hora em que o uniforme pesa. Seria interessante transformá-lo em algo mais leve. Como?  Talvez esse não seja um problema nosso. Melhor dizendo, esse não é um problema que nós tenhamos originado.

Nosso problema é social e político, e enquanto tentarmos solucioná-lo apenas institucionalmente estaremos dando continuidade a um ciclo mais que vicioso: é um ciclo romântico e infrutífero. Você acha que não? Bom, vamos a alguns pensamentos (só três):

  1. Normalmente é preciso implorar por patrulhar em um bom veículo, que insistem em chamar de viatura, mesmo que ele só seja isso por fora. Aos que acreditam em Deus, rogo para que oremos mais forte pois, desta forma, talvez alguém resolva colocar à disposição algo um pouco melhor , ou preparado para a proteção do policial e da população (como a Ford fez uma viatura para fora do Brasil – por exemplo) ;
  2. Mesmo que governantes e políticos ( às vezes pouco interessados na real solução do problema) saibam dos graves circunstâncias relacionadas ao crime organizado, instituições de segurança levam algo em torno de dois anos para conseguir comprar equipamentos que desejam para proteger um cidadão, qualquer que seja ele ou ela;
  3. Eu mudei minha pesquisa monográfica este ano. É verdade.  Saí do Gerenciamento de Crises, do Policiamento Internacional e da Negociação Policial e troquei pela necessidade de tentar trazer algo que melhorasse o treinamento policial (de novo). Tem muita gente sendo injusta e violentamente vitimada. Tudo pelo fato de alguns doutos entenderem que mais tempo nas ruas e menos treinamento resolvem o problema de segurança. Será esse o caminho? Duvido.

Ao mesmo tempo e depois dessas três considerações, percebemos que não existe tanta dificuldade assim para arranjos que indiquem um bom “retorno” para quem estiver fazendo parte do mesmo grupo que alimenta, mesmo que indiretamente, a violência social.

Com certeza esses não são bons ingredientes para quem escolheu “servir e proteger”. Mas ter sido essa a nossa escolha não significa que tenhamos que nos submeter a desmandos de quem não tem compromisso com a segurança da população, não é mesmo?

A quem interessa que isso continue?

A quem interessa que continuemos desajustados estrutural, social e politicamente?

Lembrem-se de que estamos muito próximos de um período onde as vaidades pessoais falarão muito alto. Alguns de nós, em 2010 (eleições), serão facilmente manipulados. Mas, ao mesmo tempo, muitos de nós deveremos permanecer firmes. Muito firmes.

Se não pudermos fazer isso por não termos o reconhecimento que gostaríamos de ter da população, ou por não conseguirmos um Estado tão justo como gostaríamos de ter… bom… que pelo menos nossas famílias e nossos filhos sejam contemplados com nosso trabalho. E que possam ter orgulho do uniforme que vestimos.

Nós podemos mudar o sistema. Eu penso assim.

E você?

SÍNDROME DO DONO DA BOLA

Estúpido? Eu?

Estúpido? Eu?

Interessante a aula que ministrei no Batalhão da Guarda Presidencial, em Brasília. Público seleto de uma unidade militar que tenho especial apreço.

Depois de falar sobre assuntos como Gerenciamento de Crises e Negociação, disse algo que normalmente trago como um discurso essencial, aof inal de cada curso que ministro.

Alguns alunos ficaram surpresos com minha sinceridade sobre a estupidez de se ter conhecimento e não compartilhá-lo. Eu chamo isso de SÍNDROME DO DONO DA BOLA. Alguns profissionais de segurança são tão infantis que acham que ninguém , e nunca, poderão ter as valiosas informações que eles têm… Eu resumi o meu – antigo – pensamento da seguinte forma:

Depois que você decide não transmitir conhecimento, a pior hora de se dar conta do seu orgulho e de sua soberba é quando você percebe que, quando necessita de auxílio, está do seu lado aquele a quem você negou informação.

O QUE É E COMO SE DESENVOLVE A ATIVIDADE DE NEGOCIAÇÃO NAS AÇÕES DE SEGURANÇA PUBLICA E PRIVADA – PARTE 2

A SELEÇÃO E O TREINAMENTO DAS EQUIPES DE NEGOCIAÇÃO

Treinamento

Treinamento

Artigo publicado no site www.dimensão.com.br  ,  em 29 de abril de 2008

http://www.dimensao.com.br/?sessao=materias&id=7812

Os administradores de polícia, por simples questões de aspecto técnico, de segurança e de confiabilidade em suas instituições, necessitam compreender que a seleção, organização, treinamento e equipamento de equipes de negociação é de fundamental importância para o sucesso desses grupos.
A seleção de líderes de equipes de negociação é a primeira consideração que deve ser feita. Profissionais como esses, tanto quanto os líderes de equipes táticas, são elementos primordiais para a solução das situações de risco que já mencionamos. O chefe da equipe de negociadores deve possuir um bom trânsito tanto com o chefe da equipe tática como com os membros daquele grupo. Através de especializações, ele ou ela devem também ter conhecimento da evolução das técnicas de negociação, reconhecer metodologias para rápida análise de risco e compreender como tirar o máximo da dinâmica comportamental do evento e do perpetrador. O conhecimento de fundamentos psicológicos e sociológicos, bem como disponibilidade de tempo e a manutenção dos conhecimentos obtidos através de literaturas específicas e análise de casos recentes, também são atribuições do Chefe de equipe de negociação.
Já os membros da equipe precisam ser pessoas com relativa experiência policial (um misto entre tempo na atividade e tarefas e colocações profissionais já desempenhadas). Junto com isso, pessoas que mantenham a calma em situações críticas, que possuam boa verbalização, saibam manter sob controle seu tom de voz e que dominem outros idiomas mostram-se bastante eficazes na carreira. Psicodiagnósticos que eliminem quem tenha excessiva ansiedade e que apresentem características de pouca habilidade para rapidez de raciocínio ou até uma memória falha, também auxiliam no processo de seleção.
Equipes que desejam ter sucesso não realizam menos que 05 treinamentos anuais, em média. Seria de bom tamanho que todos os envolvidos no processo pudessem realizar esse treinamento (tropas regulares e especiais) que, para um resultado minimamente eficaz, deveria possuir pelo menos os 04 cenários mais comuns dessas ocorrências: a) reféns, b) agressores barricados, c) pessoas que estejam tentando o suicídio e d) quem esteja por curto espaço de tempo em poder de seqüestradores. Técnicas de audição ativas também precisam ser treinadas, pois sua prática é dada como certa em boa parte do processo de negociação.
Por não fazerem parte da equipe de negociadores, merecem tratamento especial os casos que envolvam um primeiro atendimento que tenha feito por policiais que não possuam treinamento específico. Para isso deve também haver um protocolo de ações e uma capacitação específica. Menos interesse não deve ser dado à capacitação dos policiais que estejam em posições funcionais vinculadas ao despacho de ocorrências e decisão de ações propostas a equipes especiais. A esses, cabe a missão de distinguir o momento em que o policial não treinado deve deixar de atuar e obriga-se a entrada em cena de elementos especializados.
Entenda-se que um policial bem formado e bem intencionado jamais deve substituir um negociador devidamente capacitado. Isso não se negocia.

QUEM DEVE E QUEM NÃO DEVE NEGOCIAR?

É comum que pessoas que entendem estar indiretamente envolvidas na ocorrência ou que, por qualquer que seja o motivo, tomem conhecimento ou estejam na área do evento crítico, queiram ser alçados imediatamente à figura de

A dúvida

A dúvida

negociador. Os parentes, esposas, maridos, líderes religiosos, advogados, membros do ministério público, sociólogos, psicólogos ou psiquiatras são as figuras sociais mais comuns nesta porção da atividade.
O que faz com que estes indivíduos entendam serem eles os mais indicadas para negociar? Isso ocorre porque as características funcionais, profissionais ou conhecimentos particulares dessas pessoas confundem-se com as técnicas de negociação policial. Não devemos, sob qualquer pretexto, rejeitar estes conhecimentos uma vez que todos estes participantes são uma importante fonte de informação; mas também não podemos esquecer que outras medidas devem fazer parte da pauta de missões em ações dessa natureza, tais como: a) controle emocional, b) conhecimento de técnicas e estratégias de negociação, c) conhecimento de formas de interação com a equipe tática, d) procedimentos específicos de tratamento dos dados de inteligência, e) a forma adequada de inserir o time tático no ambiente, no caso de compreender que esta é a única solução para o caso e, por fim, f) a preservação da ordem pública é uma atribuição legal, legítima e exclusivo da polícia.
Desta forma, e entre diversas outras justificativas, fica patente que apenas policiais devem negociar.

A ATIVIDADE DE NEGOCIAÇÃO E A IMPRENSA

Freqüentemente é cometido por instituições um erro que pode ter as piores repercussões: a falta ou o pouco contato com a imprensa durante o evento crítico. Muitas corporações interpretam que o profissional da mídia é um “foca”, se quisermos tratá-lo pelo jargão jornalístico ou apenas mais um abelhudo.
Existe certa complexidade neste assunto, pois precisamos ligá-lo ao processo de contenção e controle dos indivíduos que estejam próximos a crise. Quando esta falha de contenção ocorre e pessoas indesejadas corrompem o ambiente de exclusiva circulação policial, entre elas possivelmente teremos os colegas da imprensa. Esses profissionais devem ser separados durante a apuração de quem deve ou não estar no local. Após isso, devem ser levadas a um local específico e ali mantidas, recebendo breve explicação sobre o processo e, mormente, sendo dito como podem fazer para colaborar com a ocorrência e o que prejudica o trabalho da polícia. Outra medida importante é informar periodicamente aos membros desses órgãos o que for viável, sob a ótica policial, sobre o desenrolar das ações.
Os gerentes de crise devem ter em mente que os repórteres têm um trabalho a fazer e que, desde que bem orientado, é

A imprensa te preocupa?

A imprensa te preocupa?

um fator de grande auxílio à segurança pública. Porém, entenda-se paralelamente que este trabalho será feito com o sem a ajuda das instituições policiais. A informação precisa e regular elimina a necessidade de coletá-la clandestinamente (e em alguns casos de forma bastante perigosa) prejudicando a ação das forças do estado. Caso isso não ocorra, o policial se preocupará não apenas com o caso a ser resolvido, mas também com a maneira furtiva que será utilizada para que a imprensa angarie os dados para produção da matéria.

CONCLUSÃO

Por tudo que foi dito podemos depreender que esta especificidade do trabalho do campo da segurança precisa ser respeitada. Cabe aos negociadores utilizarem-se dos conhecimentos específicos que possuem para minimizar a mácula de integridade física dos envolvidos tentando, a todo custo, evitar o uso dos últimos níveis de gradação de força.
O trabalho da segurança tem sido uma vitrine social que é contemplada por todos os ângulos. O julgamento positivo ou negativo do que consta no interior desta vitrine é fundamentado nas reações e estratégias que são colocadas em prática pela polícia durante eventos críticos, onde o agressor social tem em suas mãos a maioria e as melhores cartas naquele momento de risco.
Independente das ações proativas e das metodologias que visam à antecipação do crime, uma parcela das ações de segurança ainda permanece no campo da reação. E neste instante, mais uma vez, percebemos que os investimentos na capacitação e nas ferramentas de trabalho para negociação surgem como um extraordinário caminho para que se chegue ao máximo do que pode ser dado pelas instituições de segurança à população. E esta população sempre merecerá o melhor daqueles que se propõem a protegê-la “mesmo com o risco da própria vida”.

O QUE É E COMO SE DESENVOLVE A ATIVIDADE DE NEGOCIAÇÃO NAS AÇÕES DE SEGURANÇA PUBLICA E PRIVADA

Evento Drogaria Santa Marta

Negociação - Evento Drogaria Santa Marta

Artigo publicado no site www.dimensão.com.br  ,  em 29 de abril de 2008

http://www.dimensao.com.br/?sessao=materias&id=7812

A finalidade da ação de profissionais de segurança, seja na área pública ou privada, é a proteção da integridade física de pessoas, do patrimônio e, principalmente a preservação da vida. Desta forma princípios nacionais e internacionais de Direitos Humanos e Direitos Humanitários precisam ser alavancados, sendo a negociação o primeiro degrau policial, dentre os muitos a serem escalados, para que se chegue a uma solução pacífica de um conflito, antes de acessar a outros procedimentos de uso gradativo da força.
Iniciada em 1972, por intermédio de esforços particulares de membros do Departamento de Polícia de Nova Iorque e tendo, a partir de 1973 até os dias atuais, desenvolvimento técnico-metodológico incorporado pelo FBI, a técnica de negociação é hoje um potente instrumento para a solução de eventos que migram de pequenos conflitos domésticos a abissais contendas internacionais.
Mas o que realmente é a negociação? Por que ela deve ter tanta importância em um evento crítico? Será que qualquer pessoa pode ser um negociador durante uma ocorrência? Vejamos estes e outros aspectos no decorrer desta matéria.

A DEFINIÇÃO DE NEGOCIAÇÃO NO CAMPO DA SEGURANÇA E SUA ABRANGÊNCIA

A negociação no campo da segurança deve ser compreendida como o processo utilizado pelas instituições onde, de forma sistemática e multidisciplinar, pretende-se chegar à solução de um evento crítico que envolva pessoas, pacificamente, aplicando-se técnicas verbais e estratégias lingüísticas e psicológicas específicas, de acordo com as circunstâncias peculiares de cada evento, buscando demover agressores sociais da idéia de executar ou continuar executando evento criminoso.
Esta definição precisa ter amplitude tal que abranja os segmentos público e privado. Deve estar claro que as

FBI - Famosos mundo afora

FBI - Famosos mundo afora

corporações públicas de segurança são as responsáveis para lidar com estes casos, mas não descartemos a necessidade de membros de instituições privadas dominarem parte deste conhecimento.
É mandatório para essas instituições privadas compreender quais erros devem ser evitados e que comportamentos não devem ser adotados quando da ocorrência destes episódios de risco em instalações e locais que estejam sob sua responsabilidade.
O bom início deste processo, que tem entre os 15 e 45 minutos iniciais de sua execução a parte mais complexa da ação, espelha, na maioria dos casos, um desfecho de sucesso, objetivo mais importante dentro do que procuram todos os profissionais de segurança.

A ATIVIDADE DE NEGOCIAÇÃO E A INTERAÇÃO COM OUTRAS MISSÕES

É notório que a negociação demonstrou ser um dos métodos mais eficazes para a resolução de conflitos nas áreas de segurança pública e privada. Apesar de esta técnica ser “jovem” – 35 anos – por múltiplas razões este procedimento não pode ser desconsiderado, em qualquer que seja o nível do conflito. Pelo mundo, o sucesso de milhares de casos envolvendo reféns, agressores barricados, pessoas que estejam tentando o suicídio e quem esteja por curto espaço de tempo em poder de seqüestradores, se deve à ação de negociadores.

Interação de Missões

Interação de Missões

Mas as ações de negociação não se desenrolam de forma isolada. Estas caminham de mãos dadas com os procedimentos realizados por componentes de corpos de segurança que executam serviços regulares (mas em hipótese alguma menos importantes), pelas equipes de intervenção tática (resgate de reféns) e por componentes de altas esferas hierárquicas da segurança pública , estes últimos responsáveis por gerenciar corretamente todos os envolvidos nas situações.
Durante as ações de negociação temos ainda personagens que não estão em nada ligados a atividades de segurança, mas corroboram com alguns momentos específicos. Tratamos, nomeadamente, dos funcionários das companhias de água e esgoto, de telefonia e de companhias elétricas. O cessar desses serviços públicos, na maioria das vezes quando abordamos edificações residenciais e comerciais, compõem uma das formas de auxílio no processo de negociação.
A efetiva e homogênea trama de cada uma das partes retromencionadas adensa a possibilidade de um resultado favorável para a preservação da vida e da ordem naquele ambiente crítico.

AS CORPORAÇÕES E AS AÇÕES DE NEGOCIAÇÃO

Alguns administradores policiais, possuidores de poder de decisão no cenário imediato de crises em andamento, talvez não consigam compreender determinados comportamentos de seus negociadores durante estes episódios. O que um administrador menos favorecido tecnicamente pode entender como um prazo fatal de grande monta, um negociador treinado sabe que está lidando com um comportamento que pode ser aproveitado em favor da ação policial; pedidos facilmente aceitáveis e disponíveis para um administrador são, para o especialista em negociação, uma simples moeda de barganha que deve ser temporariamente negada.
O que pode ser compreendido por um leigo como falta de comunicação e ausência de ação em relação ao interior de

Tática aliada a inteligência

Tática aliada a inteligência

uma edificação onde esteja ocorrendo o evento crítico, para um negociador pode ser compreendido como o que denominamos inatividade dinâmica, ou seja, sabemos que o perpetrador está agindo/pensando em agir no interior do ambiente.
Digamos, a bem da verdade, que, no Brasil, parte do romantismo encontrado na perfeição de atividades tem certa recenticidade. É tudo muito novo. A ausência de vaidades entre gerentes de crise, chefes de equipes táticas e chefes de equipes de negociação nem sempre foi um ingrediente presente na receita das instituições policiais.
As corporações mais amadurecidas já conseguiram compreender, mesmo que com erros próprios, pelo menos cinco circunstâncias imprescindíveis, a saber :
1. O investimento material e técnico nas equipes de negociação é tão importante para o sucesso das ações de preservação da vida quanto os equipamentos e armamentos adquiridos para os componentes de equipes táticas;
2. Os níveis hierárquicos de quem participa destas ações devem, na medida do possível, serem semelhantes, principalmente porque, apesar de sabermos que superioridade funcional não é sinônimo de competência técnica, diversos equívocos procedimentais e táticos estiveram presentes durante a execução do poder de polícia por conta deste detalhe;
3. A formação de profissionais de negociação precisa ser seguida do aperfeiçoamento e do treinamento contínuo deste especialista, da mesma forma que deve ocorrer em qualquer outro segmento das ações de segurança;
4. Componentes de equipes regulares de ação policial também devem conhecer o que fazem as equipes que lidam com eventos críticos;
5. Independente do sucesso ou fracasso da negociação – e como todo e qualquer outro procedimento policial – o protocolo de ações dos negociadores precisa existir e estar de acordo com a legislação vigente, tudo em função das

Cada qual é cada qual

Cada qual é cada qual

legais e necessárias explicações a serem prestadas às competentes cortes judiciais.
Apesar do que foi dito, algumas instituições, públicas e privadas, ainda não compreenderam que a timidez na utilização, tanto de ensinamentos básicos a profissionais que precisem lidar com eventos críticos como de negociadores profissionais, tem como conseqüência um início e um desfecho equivocado – senão trágico – de ocorrências desta natureza.

A EQUIPE DE NEGOCIAÇÃO

A figura do negociador atuando sozinho é um mito. Exemplos no mundo inteiro, e incluam-se casos na capital federal, demonstram a condição de risco existente nesta infeliz e pouco profissional medida.
Geralmente uma equipe de negociação é composta por, pelo menos, três integrantes, atuando direta e indiretamente no caso. O mínimo necessário para a realização deste trabalho determina a presença de um negociador principal, o qual se concentra na comunicação direta com o agressor social; um negociador secundário, que dá suporte ao primeiro com sugestões técnicas, com o monitoramento e a descrição das ações já tomadas e permitindo que um

Em grupo é mais efetivo, acredite!

Em grupo é mais efetivo, acredite!

cenário geral do caso chegue ao negociador principal, que manterá seu foco no perpetrador; o terceiro negociador agirá como a “peneira” das informações disponíveis, bem como será responsável por apresentar um histórico enxuto de vida (social e até de saúde mental) daquele que esteja cometendo ou tenha cometido a infração que determinou o aparato policial naquele local.
Em havendo mais negociadores, deveremos ter profissionais atuando como chefe da equipe (de preferência o mais experiente e de maior ascensão hierárquica) e até auxiliando a equipe de coleta de dados.

No próximo artigo estarei tratando:

  1. Seleção e treinamento da equipe;
  2. Quem pode/deve e quem não pode/não deve negociar;
  3. A atividade de negociação e a imprensa.

Abraço

O INVENTOR E A QUEBRA DE PARADIGMAS

Durante uma entrevista que dei ao jornalista Conrado Vitali sobre a utilização de simulacros de armas de plástico injetado para o treinamento policial, além de modificações em treinamentos com a utilização de tecnologias disponíveis no mercado, fiquei intrigado com a sua surpresa sobre o que eu dizia. Afinal eu imaginava que não estaria falando nada de muito novo. Mas não era bem assim.

Você é um inventor?

Você é um inventor?

Isso me remeteu a um fato interessante que ocorreu pouco depois que entrei na Polícia Militar. No ano de 1990 eu ouvi pela primeira vez uma frase que, durante muitos anos eu tornaria a escutar por diversas oportunidades: ”Quem inventa é INVENTOR. A palavra começa com a letra “I” de Incompetente, termina com a letra “R” de regular, e o que é regular nunca chegará ao muito bom”. A razão para que eu tivesse acesso àquele jargão – comum no meio militar – ocorreu por conta de um oficial que, por entender que poderíamos realizar algo diferente e que esteticamente pudesse ser bem visto aos olhos da exigente platéia do Distrito Federal, disse o seguinte: “Atenção aos cadetes: preparem-se para realizar uma ordem unida sem comando!”. Bom, naquele tempo eu mal compreendia o que era ordem unida, mas no meu parco saber policial militar achava aquilo uma perda de tempo (opinião que se modificou drasticamente no futuro, depois que analisei o que ela significava em termos atitudinais e disciplinares); se raras eram as informações sobre ordem unida, que dirá sobre ordem unida sem comando. Mas deveria ser a mesma eterna e infindável baboseira do um, dois, três, quatro… direita e esquerda, direita e esquerda…
Iniciados os treinamentos, o grupo começou a perceber que a forma como estes estavam sendo dirigidos era diferente de tudo que experimentamos em eventos anteriores e, confesso, até desconfiamos um pouco – será que o motivo era o evento ocorrer no triângulo dos ícones de representação do país, a Praça dos Três Poderes? Ou o tenente queria dar uma de bom moço e amaciar nosso ego ao adocicar um pouco mais suas palavras e atitudes para nos convencer a fazer direitinho o que ele queria? Nos enganamos… Nem uma coisa e nem outra . Algumas de nossas necessidades e

Tempo

Tempo

interesses foram satisfeitos; em certo momento houve uma autodireção no que tange a nossas atitudes e movimentos; foram consideradas diferenças de tempo, lugar e ritmos de aprendizagem na seleção de quem faria o quê, durante a tal missão. Além da ordem unida sem comando me estar sendo apresentada, me era apresentada também uma nova modalidade de treinamento e, juntamente, certos fundamentos de pedagogia e andragogia, acertadamente compensados. Hoje são visíveis para mim, principalmente, o que aquele oficial utilizava dos conceitos de educação; e alguns dos conceitos são notórios em obras acadêmicas como o clássico “The meaning of Adult Education” (1926) – traduzindo: O Significado da Educação para Adultos – do respeitado educador Eduard C. Lindeman.

A EDUCAÇÃO E A REALIDADE DO TREINAMENTO POLICIAL
Pode parecer que eu tenha divagado um pouco nos parágrafos anteriores, mas a tal frase que eu disse ter ouvido repetidas vezes em minha vida policial militar fora apenas, assevero, um misto de visível inveja e incompetência para inovação no treinamento por parte de quem não poderia fazer o mesmo. E voltando a falar sobre diferentes tecnologias e novas modalidades de desenvolvimento de destreza para o público de segurança, a coisa não difere muito. O autor Paulo Freire afirma em Pedagogia da Autonomia (1996) que “Ensinar não é transferir conhecimento,

O educador Paulo Freire

O educador Paulo Freire

mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Para o treinamento policial isso é de fundamental importância, uma vez que o ecletismo das situações que nos são apresentadas durante processos de solução de conflitos cotidianos – dos mais simples aos mais complexos – obriga que o volume de conhecimento disponibilizado seja abrangente a ponto de poder ser aplicado nesta mesma proporção. Isso nos remete à obrigatoriedade de permitir que o profissional de segurança, policial ou não, tenha, em qualquer que seja sua capacitação ou treinamento, o contato com ferramentas e cenários realísticos.
Quanto à educação e ao treinamento de adultos, podemos adensar o pensamento anterior quando extraímos dos fundamentos e conceitos andragógicos que:
1. Sobre a vontade de aprender, os adultos se disponibilizam a ingressar em um processo de aprendizagem quando compreendem a sua utilidade para melhor enfrentar situações reais de sua vida pessoal e profissional;
2. Já analisando pelo prisma da orientação da aprendizagem para os adultos, esta deve voltar-se à resolução de problemas e tarefas que se espelhem na sua vida cotidiana.
Isso facilmente nos dissuade de sermos excessivamente ortodoxos quanto a modelos de transmissão de conhecimentos e, por vezes, insistirmos em ir por um caminho exclusivamente lógico e calcado apenas em conteúdos. O EXPERIMENTAR E VALIDAR passa a ser muito mais eficaz que o simples CONHECER E COMPREENDER.

A PEDAGOGIA, AS FERRAMENTAS E A TECNOLOGIA
Neste instante nos voltamos para o uso de ferramentas de treinamento tais como: as blue/red guns (armas azuis/vermelhas), shocknife (facas de choque) e redman e high gear (homem vermelho e equipamento de alto de impacto), entre outras.
O estrangeirismo deve-se, exclusivamente, ao nome original destes materiais, uma vez que sua origem de criação, em sua quase totalidade, vincula-se aos Estados Unidos. Estes materiais tiveram sua concepção na infeliz evolução e crescimento da violência social. Percebeu-se então que a capacitação e o treinamento precisavam acompanhar este fenômeno. Apesar de utilizados fora do país há mais de uma década (em novembro de 2000 eu já era apresentado ao grande potencial dos treinamentos com simulacros durante um curso na Califórnia) apenas recentemente empresas se interessaram em adquirir estes produtos para sua distribuição comercial no Brasil.
Na mesma entrevista já mencionada ao Jornalista Conrado Vitali relatei que, sem o equipamento ideal, o instrutor se vale de criatividade didática para chamar a atenção de seu aluno e para garantir qualidade e realismo ao treinamento. Ocorre também que muitas vezes o uso de armas reais ou com falsa munição (em diversos casos munições preparadas artesanalmente pelos instrutores) ocasionam problemas como o desgaste ou quebra do armamento e o risco de erros neste municiamento. São públicos os casos em que policiais, infelizmente, sofrem acidentes durante treinamentos. Apesar de todo o cuidado com os procedimentos de preparo, a segurança nunca chegará a cem por cento. Por motivos vários, uma arma acaba sendo municiada indevidamente. Também mencionei que enquanto Consultor de Treinamento Policial para a ONU, quando treinei tropas no Timor Leste, utilizamos as blue/red guns e o resultado foi excepcional. Ressalte-se que, por ter o material, eu não precisei improvisar.
Mas o que caracterizaria uma diferença tão grande nestes materiais de treinamento? Vamos a uma breve descrição para facilitar as coisas:

Blue gun e a verdadeira

Blue gun e a verdadeira

BLUE/RED GUNS: são simulacros perfeitos de armas e carregadores que apresentam a mesma anatomia da arma real, bem como seu peso e dimensões. O detalhe é que a segurança é total já que não possuem mecanismos de tiro. São réplicas dos armamentos reais que garantem segurança absoluta; até porque sua cor azul/vermelho intensa, ela identifica para o instrutor que o aprendiz está usando um simulacro. Não há risco de erro ou confusão. Some-se a isso o fato de que o uso das blue/red guns proporciona a preservação das armas reais. Utilizados em larga escala nos treinamentos, além dos acidentes que eventualmente podem provocar, os armamentos reais passam por desgastes e deterioração, além de também simplesmente quebrarem, ficando inutilizados. Para capacitações básicas voltadas para movimentação armada, treinamentos de saques, treinamentos de troca de carregador, técnicas de desarmamento e simulações de abordagem, este material assegura a percepção do instrutor sobre o controle da eficácia pedagógica na instrução.
SHOCKNIFE: é comum que em áreas residenciais de baixa renda e em casos de violência doméstica, facas e facões sejam encontrados facilmente em agressões contra pessoas. Para saber como lidar com esses casos fiz treinamentos, durante muitos anos, tendo que me valer de facas de madeira, plástico e borracha do tipo EVA (aquelas de “solado de chinelo”). Todos estes materiais podem ficar semelhantes a facas verdadeiras, sem nos expor desnecessariamente à utilização de uma faca real. Mas, até pouco tempo, somente esta faca real poderia promover o pânico que é gerado com a possibilidade de um corte ou estocada em nosso corpo, superficial ou não. Com a SHOCKNIFE, que nada mais é

Um choque e tanto

Um choque e tanto

do que um simulacro de faca com uma bateria inserida no cabo e que dá choques elétricos quando toca uma superfície, o treinamento do profissional de segurança se torna mais realístico, pois o choque produz o pânico do toque da lâmina, o estresse característico de treinamentos mais realísticos e inclusive sinaliza os pontos de toque da lâmina.
Algo de extremo valor nesta ferramenta é a possibilidade de assegurar o biofeedback, que poderia ser resumido, neste caso específico, como um retorno físico e psicofisiológico de um estímulo provocado artificialmente. Este conceito foi garimpado inicialmente no final dos anos sessenta, quando pesquisas eram feitas para que se simulassem situações que determinassem em indivíduos alteração de batimentos cardíacos, alterações de atividades cerebrais, pressão arterial e outras funções corporais normalmente não controladas voluntariamente. Para profissionais de segurança que já se viram frente a frente com o perigo, a descrição anterior não é uma novidade. Só há uma diferença: em nossos casos reais a segunda chance não existe.
REDMAN e HIGH GEAR: Para falar de treinamentos realísticos sem tratar de táticas defensivas, é como falar de tiro sem tocar no assunto armas e munições. Há muito já não se fala mais em treinar apenas de quimono durante todo o processo de ensino de policiais e outros profissionais de segurança. A não ser que alguém me prove que há chance para pedir ao bandido um tempinho para colocá-lo antes de um caso de resistência à prisão. O REDMAN e o HIGH GEAR, ou homem vermelho/equipamento de alto impacto, constitui-se de uma proteção para ser colocada sobre a farda e outras partes do corpo para permitir que o instrutor possa simular ataques com os alunos, como atacariam

treinamento de táticas defensivas

treinamento de táticas defensivas

quaisquer agressores sociais mais violentos, mas com o seguinte diferencial: a roupa permite realizar quase todos os movimentos de forma próxima ao natural e é confeccionada com um sistema de dispersão de impacto que permite ao aluno poder receber desde golpes de contundência considerável, até golpes de bastão e impactos de projéteis de treinamento. É como se fosse uma armadura leve e flexível para otimização das alternativas de aula do instrutor de defesa pessoal e de táticas defensivas.
Mas o mais importante de tudo isso não é a presença do equipamento no Brasil. As colunas de sustentação estarão justas e perfeitas por termos a certeza de que nossos policiais serão melhores preparados para bem defender a sociedade, com a vantagem de tudo estar dentro dos princípios nacionais e internacionais de direitos humanos e de uso progressivo da força. Com estes materiais o treinamento sairá da esfera nublada e nefasta do improviso, permitindo aos instrutores resultado efetivo, tudo dentro de um contexto didático de alto nível e com um cenário que permita métodos instrucionais adequados ao aluno e ao conteúdo a ser transmitido. Afinal, nos meus 18 anos como profissional de segurança, quer seja dentro ou fora do Brasil, jamais ouvi qualquer pessoa se aventurar a dizer que seja fácil o treinamento para a preservação da vida.

E a propósito: a ordem unida sem comando foi um sucesso.