Durante uma entrevista que dei ao jornalista Conrado Vitali sobre a utilização de simulacros de armas de plástico injetado para o treinamento policial, além de modificações em treinamentos com a utilização de tecnologias disponíveis no mercado, fiquei intrigado com a sua surpresa sobre o que eu dizia. Afinal eu imaginava que não estaria falando nada de muito novo. Mas não era bem assim.

Você é um inventor?
Isso me remeteu a um fato interessante que ocorreu pouco depois que entrei na Polícia Militar. No ano de 1990 eu ouvi pela primeira vez uma frase que, durante muitos anos eu tornaria a escutar por diversas oportunidades: ”Quem inventa é INVENTOR. A palavra começa com a letra “I” de Incompetente, termina com a letra “R” de regular, e o que é regular nunca chegará ao muito bom”. A razão para que eu tivesse acesso àquele jargão – comum no meio militar – ocorreu por conta de um oficial que, por entender que poderíamos realizar algo diferente e que esteticamente pudesse ser bem visto aos olhos da exigente platéia do Distrito Federal, disse o seguinte: “Atenção aos cadetes: preparem-se para realizar uma ordem unida sem comando!”. Bom, naquele tempo eu mal compreendia o que era ordem unida, mas no meu parco saber policial militar achava aquilo uma perda de tempo (opinião que se modificou drasticamente no futuro, depois que analisei o que ela significava em termos atitudinais e disciplinares); se raras eram as informações sobre ordem unida, que dirá sobre ordem unida sem comando. Mas deveria ser a mesma eterna e infindável baboseira do um, dois, três, quatro… direita e esquerda, direita e esquerda…
Iniciados os treinamentos, o grupo começou a perceber que a forma como estes estavam sendo dirigidos era diferente de tudo que experimentamos em eventos anteriores e, confesso, até desconfiamos um pouco – será que o motivo era o evento ocorrer no triângulo dos ícones de representação do país, a Praça dos Três Poderes? Ou o tenente queria dar uma de bom moço e amaciar nosso ego ao adocicar um pouco mais suas palavras e atitudes para nos convencer a fazer direitinho o que ele queria? Nos enganamos… Nem uma coisa e nem outra . Algumas de nossas necessidades e

Tempo
interesses foram satisfeitos; em certo momento houve uma autodireção no que tange a nossas atitudes e movimentos; foram consideradas diferenças de tempo, lugar e ritmos de aprendizagem na seleção de quem faria o quê, durante a tal missão. Além da ordem unida sem comando me estar sendo apresentada, me era apresentada também uma nova modalidade de treinamento e, juntamente, certos fundamentos de pedagogia e andragogia, acertadamente compensados. Hoje são visíveis para mim, principalmente, o que aquele oficial utilizava dos conceitos de educação; e alguns dos conceitos são notórios em obras acadêmicas como o clássico “The meaning of Adult Education” (1926) – traduzindo: O Significado da Educação para Adultos – do respeitado educador Eduard C. Lindeman.
A EDUCAÇÃO E A REALIDADE DO TREINAMENTO POLICIAL
Pode parecer que eu tenha divagado um pouco nos parágrafos anteriores, mas a tal frase que eu disse ter ouvido repetidas vezes em minha vida policial militar fora apenas, assevero, um misto de visível inveja e incompetência para inovação no treinamento por parte de quem não poderia fazer o mesmo. E voltando a falar sobre diferentes tecnologias e novas modalidades de desenvolvimento de destreza para o público de segurança, a coisa não difere muito. O autor Paulo Freire afirma em Pedagogia da Autonomia (1996) que “Ensinar não é transferir conhecimento,

O educador Paulo Freire
mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Para o treinamento policial isso é de fundamental importância, uma vez que o ecletismo das situações que nos são apresentadas durante processos de solução de conflitos cotidianos – dos mais simples aos mais complexos – obriga que o volume de conhecimento disponibilizado seja abrangente a ponto de poder ser aplicado nesta mesma proporção. Isso nos remete à obrigatoriedade de permitir que o profissional de segurança, policial ou não, tenha, em qualquer que seja sua capacitação ou treinamento, o contato com ferramentas e cenários realísticos.
Quanto à educação e ao treinamento de adultos, podemos adensar o pensamento anterior quando extraímos dos fundamentos e conceitos andragógicos que:
1. Sobre a vontade de aprender, os adultos se disponibilizam a ingressar em um processo de aprendizagem quando compreendem a sua utilidade para melhor enfrentar situações reais de sua vida pessoal e profissional;
2. Já analisando pelo prisma da orientação da aprendizagem para os adultos, esta deve voltar-se à resolução de problemas e tarefas que se espelhem na sua vida cotidiana.
Isso facilmente nos dissuade de sermos excessivamente ortodoxos quanto a modelos de transmissão de conhecimentos e, por vezes, insistirmos em ir por um caminho exclusivamente lógico e calcado apenas em conteúdos. O EXPERIMENTAR E VALIDAR passa a ser muito mais eficaz que o simples CONHECER E COMPREENDER.
A PEDAGOGIA, AS FERRAMENTAS E A TECNOLOGIA
Neste instante nos voltamos para o uso de ferramentas de treinamento tais como: as blue/red guns (armas azuis/vermelhas), shocknife (facas de choque) e redman e high gear (homem vermelho e equipamento de alto de impacto), entre outras.
O estrangeirismo deve-se, exclusivamente, ao nome original destes materiais, uma vez que sua origem de criação, em sua quase totalidade, vincula-se aos Estados Unidos. Estes materiais tiveram sua concepção na infeliz evolução e crescimento da violência social. Percebeu-se então que a capacitação e o treinamento precisavam acompanhar este fenômeno. Apesar de utilizados fora do país há mais de uma década (em novembro de 2000 eu já era apresentado ao grande potencial dos treinamentos com simulacros durante um curso na Califórnia) apenas recentemente empresas se interessaram em adquirir estes produtos para sua distribuição comercial no Brasil.
Na mesma entrevista já mencionada ao Jornalista Conrado Vitali relatei que, sem o equipamento ideal, o instrutor se vale de criatividade didática para chamar a atenção de seu aluno e para garantir qualidade e realismo ao treinamento. Ocorre também que muitas vezes o uso de armas reais ou com falsa munição (em diversos casos munições preparadas artesanalmente pelos instrutores) ocasionam problemas como o desgaste ou quebra do armamento e o risco de erros neste municiamento. São públicos os casos em que policiais, infelizmente, sofrem acidentes durante treinamentos. Apesar de todo o cuidado com os procedimentos de preparo, a segurança nunca chegará a cem por cento. Por motivos vários, uma arma acaba sendo municiada indevidamente. Também mencionei que enquanto Consultor de Treinamento Policial para a ONU, quando treinei tropas no Timor Leste, utilizamos as blue/red guns e o resultado foi excepcional. Ressalte-se que, por ter o material, eu não precisei improvisar.
Mas o que caracterizaria uma diferença tão grande nestes materiais de treinamento? Vamos a uma breve descrição para facilitar as coisas:

Blue gun e a verdadeira
BLUE/RED GUNS: são simulacros perfeitos de armas e carregadores que apresentam a mesma anatomia da arma real, bem como seu peso e dimensões. O detalhe é que a segurança é total já que não possuem mecanismos de tiro. São réplicas dos armamentos reais que garantem segurança absoluta; até porque sua cor azul/vermelho intensa, ela identifica para o instrutor que o aprendiz está usando um simulacro. Não há risco de erro ou confusão. Some-se a isso o fato de que o uso das blue/red guns proporciona a preservação das armas reais. Utilizados em larga escala nos treinamentos, além dos acidentes que eventualmente podem provocar, os armamentos reais passam por desgastes e deterioração, além de também simplesmente quebrarem, ficando inutilizados. Para capacitações básicas voltadas para movimentação armada, treinamentos de saques, treinamentos de troca de carregador, técnicas de desarmamento e simulações de abordagem, este material assegura a percepção do instrutor sobre o controle da eficácia pedagógica na instrução.
SHOCKNIFE: é comum que em áreas residenciais de baixa renda e em casos de violência doméstica, facas e facões sejam encontrados facilmente em agressões contra pessoas. Para saber como lidar com esses casos fiz treinamentos, durante muitos anos, tendo que me valer de facas de madeira, plástico e borracha do tipo EVA (aquelas de “solado de chinelo”). Todos estes materiais podem ficar semelhantes a facas verdadeiras, sem nos expor desnecessariamente à utilização de uma faca real. Mas, até pouco tempo, somente esta faca real poderia promover o pânico que é gerado com a possibilidade de um corte ou estocada em nosso corpo, superficial ou não. Com a SHOCKNIFE, que nada mais é

Um choque e tanto
do que um simulacro de faca com uma bateria inserida no cabo e que dá choques elétricos quando toca uma superfície, o treinamento do profissional de segurança se torna mais realístico, pois o choque produz o pânico do toque da lâmina, o estresse característico de treinamentos mais realísticos e inclusive sinaliza os pontos de toque da lâmina.
Algo de extremo valor nesta ferramenta é a possibilidade de assegurar o biofeedback, que poderia ser resumido, neste caso específico, como um retorno físico e psicofisiológico de um estímulo provocado artificialmente. Este conceito foi garimpado inicialmente no final dos anos sessenta, quando pesquisas eram feitas para que se simulassem situações que determinassem em indivíduos alteração de batimentos cardíacos, alterações de atividades cerebrais, pressão arterial e outras funções corporais normalmente não controladas voluntariamente. Para profissionais de segurança que já se viram frente a frente com o perigo, a descrição anterior não é uma novidade. Só há uma diferença: em nossos casos reais a segunda chance não existe.
REDMAN e HIGH GEAR: Para falar de treinamentos realísticos sem tratar de táticas defensivas, é como falar de tiro sem tocar no assunto armas e munições. Há muito já não se fala mais em treinar apenas de quimono durante todo o processo de ensino de policiais e outros profissionais de segurança. A não ser que alguém me prove que há chance para pedir ao bandido um tempinho para colocá-lo antes de um caso de resistência à prisão. O REDMAN e o HIGH GEAR, ou homem vermelho/equipamento de alto impacto, constitui-se de uma proteção para ser colocada sobre a farda e outras partes do corpo para permitir que o instrutor possa simular ataques com os alunos, como atacariam

treinamento de táticas defensivas
quaisquer agressores sociais mais violentos, mas com o seguinte diferencial: a roupa permite realizar quase todos os movimentos de forma próxima ao natural e é confeccionada com um sistema de dispersão de impacto que permite ao aluno poder receber desde golpes de contundência considerável, até golpes de bastão e impactos de projéteis de treinamento. É como se fosse uma armadura leve e flexível para otimização das alternativas de aula do instrutor de defesa pessoal e de táticas defensivas.
Mas o mais importante de tudo isso não é a presença do equipamento no Brasil. As colunas de sustentação estarão justas e perfeitas por termos a certeza de que nossos policiais serão melhores preparados para bem defender a sociedade, com a vantagem de tudo estar dentro dos princípios nacionais e internacionais de direitos humanos e de uso progressivo da força. Com estes materiais o treinamento sairá da esfera nublada e nefasta do improviso, permitindo aos instrutores resultado efetivo, tudo dentro de um contexto didático de alto nível e com um cenário que permita métodos instrucionais adequados ao aluno e ao conteúdo a ser transmitido. Afinal, nos meus 18 anos como profissional de segurança, quer seja dentro ou fora do Brasil, jamais ouvi qualquer pessoa se aventurar a dizer que seja fácil o treinamento para a preservação da vida.
E a propósito: a ordem unida sem comando foi um sucesso.